A Revolução da Energia: Por Que o ROE Supera o ROI na Nova Economia do Consumidor
No cenário atual de sobrecarga e escolhas ilimitadas, um novo conceito emerge como bússola para empresas e consumidores: o Retorno da Energia (ROE). Apresentado durante o SP Innovation Week pela WGSN, essa métrica vai além dos tradicionais relatórios financeiros, questionando não apenas o custo de algo, mas o dispêndio de energia humana que ele exige. Esse shift fundamental, que prioriza o bem-estar e a capacidade cognitiva, promete redefinir estratégias de marketing, gestão e inovação nos próximos anos.
Atualizado em 24 de maio de 2024 • Leitura estimada: 6 minutos
Resumo rápido
- O Retorno da Energia (ROE) é uma nova métrica que avalia o custo energético (físico, mental, emocional) que uma experiência ou produto exige de uma pessoa.
- Empresas que priorizam o ROE, simplificando processos e reduzindo atritos, ganham vantagem competitiva ao alinhar-se com a crescente busca do consumidor por alívio da sobrecarga.
- A adoção do ROE internamente pode transformar a cultura organizacional, impulsionando engajamento e inovação ao preservar a energia das equipes.
O que aconteceu
Durante o renomado SP Innovation Week, a WGSN, líder global em previsão de tendências, lançou um conceito instigante em sua apresentação sobre o “consumidor do futuro”: o Retorno da Energia, ou ROE. Diferente da sigla financeira, este ROE foca na capacidade humana de investir tempo e atenção em um mundo saturado. A premissa é clara: em uma era de constante bombardeio de informações, infinitas opções e uma sensação perene de urgência, indivíduos estão reavaliando o valor não apenas pelo preço, mas pela demanda energética que algo impõe.
O relatório “Future Consumer 2027: Emotions” da WGSN aprofunda essa visão, indicando que as decisões de consumo serão progressivamente moldadas por estados emocionais coletivos. Um desses estados é o “Witherwill”, que descreve o anseio coletivo por alívio de responsabilidades, escolhas complexas e pressões ininterruptas. Essa tendência é corroborada por dados expressivos: mais de 88 milhões de postagens com a hashtag #slowlife no TikTok e uma pesquisa da Trendwatching (2024) revelando que 52% da Geração Z sente-se melhor quando está desconectada. Esse movimento indica uma profunda reconfiguração na lógica de valor, impulsionando consumidores a buscarem ativamente marcas, serviços e experiências que minimizem fricções, simplifiquem suas vidas e, crucialmente, salvaguardem sua energia emocional e cognitiva.
Ponto-chave
A verdadeira sustentabilidade dos resultados de uma organização e a fidelidade do consumidor não residem apenas no Retorno sobre o Investimento (ROI), mas fundamentalmente no Retorno da Energia (ROE) que ela consegue gerar para todos os envolvidos, reconhecendo que a energia é a condição essencial para a percepção, aprendizado, colaboração e inovação.
Por que isso importa
A relevância do ROE transcende o comportamento individual. Ele se posiciona como um farol para o mercado, as empresas e as tendências digitais. Negligenciar essa mudança pode significar a perda de competitividade e a desconexão com uma parcela crescente de consumidores. Para as organizações, o ROE oferece uma lente crítica para analisar processos, produtos e cultura interna. Se os consumidores buscam simplificação e menor dispêndio de energia em suas escolhas, as empresas precisam espelhar essa abordagem em suas operações e na experiência de seus colaboradores.
Afinal, a exaustão que o consumidor sente ao final do dia é a mesma que atinge o colaborador dentro das corporações. Dados recentes do “State of the Global Workplace” da Gallup são alarmantes: apenas 20% dos profissionais globais declaram-se engajados, uma queda consecutiva que custa à economia mundial estimados US$ 438 bilhões em produtividade. Paralelamente, 41% relataram níveis elevados de estresse no dia anterior. Interpretar isso meramente como um problema de clima ou liderança pode ser superficial. Estamos, de fato, diante de uma crise de energia generalizada. As organizações, otimizadas por décadas para eficiência e crescimento (ROI), criaram sistemas cada vez mais demandantes, onde cada nova tecnologia, cada adaptação e cada prioridade adicional drena a energia cognitiva de quem precisa executá-las. A ironia é que medimos exaustivamente os resultados, mas raramente a qualidade da energia que os sustenta.
Impactos práticos
Para empresas
Empresas precisam revisar suas jornadas de cliente e colaborador com a ótica do ROE. Isso envolve simplificar interfaces digitais, otimizar processos internos, reduzir a carga de decisões e oferecer soluções que minimizem o esforço mental e emocional. Oportunidades surgem na criação de produtos e serviços que agreguem conveniência e aliviem o estresse, posicionando a marca como uma aliada na preservação da energia vital. Investir no bem-estar e na produtividade consciente da equipe não é apenas uma questão de RH, mas uma estratégia de negócio crucial para inovação e retenção de talentos.
Para consumidores
O público final experimentará uma mudança na oferta de valor. Haverá uma preferência crescente por marcas que entendem e respeitam seu tempo e energia. Isso se traduz em experiências de compra mais fluidas, serviços mais intuitivos, comunicação mais direta e produtos que realmente simplificam a vida, em vez de adicionar complexidade. A confiança do consumidor será construída não só pela qualidade ou preço, mas pela capacidade da marca de ser um “redutor de atrito” em seu dia a dia.
Para o mercado
A adoção do ROE pode gerar uma nova onda de inovação em design de serviço e produto. Setores inteiros podem ser transformados, com empresas buscando se diferenciar ao oferecer “experiências de baixa energia”. Regulamentações podem surgir para proteger a saúde mental e o bem-estar digital, e a competitividade será acirrada entre as empresas que melhor souberem gerenciar e otimizar o dispêndio de energia de seus stakeholders. Haverá uma pressão para que a transformação digital não apenas aumente a eficiência, mas também a “fluidez humana”.
O cenário daqui para frente
Os próximos anos verão uma intensificação da discussão sobre o ROE, elevando-o de uma tendência a uma métrica estratégica. Empresas líderes começarão a incorporar “mapas de energia” em suas análises, da mesma forma que hoje utilizam mapas de jornada do cliente. Espera-se um aumento no investimento em tecnologias e metodologias que visem à simplificação e à redução da sobrecarga cognitiva, tanto para clientes quanto para colaboradores. A inteligência artificial, por exemplo, pode ser uma grande aliada na automação de tarefas repetitivas e na personalização de experiências que poupam energia humana.
Conexões inteligentes com o comportamento de mercado sugerem que a valorização do “tempo lento” (slow living), da autenticidade e da saúde mental se tornará ainda mais forte. As estratégias empresariais precisarão evoluir para além da mera entrega de valor transacional, focando na construção de um relacionamento que respeite os limites energéticos do indivíduo. A inovação será reorientada para criar soluções que “descompliquem”, em vez de apenas “adicionem funcionalidades”, consolidando a ideia de que a simplicidade é a nova sofisticação na experiência digital e física.
O que observar agora
- Aumento da demanda por ferramentas e metodologias de gestão que prometam “reduzir atrito” ou “otimizar energia” nas equipes.
- Movimentações de empresas em setores como varejo e serviços financeiros para simplificar radicalmente suas jornadas de cliente, tornando-as mais intuitivas e menos demandantes.
- A crescente adoção de abordagens “slow” em áreas não tradicionais (ex: slow marketing, slow tech), sinalizando uma rejeição ao ritmo frenético.
Perguntas frequentes
O que é o Retorno da Energia (ROE)?
O Retorno da Energia (ROE) é um conceito que avalia o custo energético, físico, mental e emocional que uma atividade, produto ou serviço exige de um indivíduo, em contraste com o benefício ou “retorno” que ele oferece.
Como o ROE se diferencia do ROI tradicional?
Enquanto o ROI (Retorno sobre Investimento) mede o ganho financeiro ou tangível em relação ao capital investido, o ROE foca no custo não-financeiro – a energia humana – necessário para interagir com algo, medindo a capacidade de uma experiência de preservar ou reabastecer a energia do usuário.
Como as empresas podem começar a aplicar o conceito de ROE?
Empresas podem começar mapeando as jornadas de clientes e colaboradores para identificar pontos de atrito e alto dispêndio de energia. Simplificar processos, otimizar interfaces digitais e criar uma cultura de trabalho que valorize o bem-estar e o foco podem ser os primeiros passos para gerar um ROE positivo.